Este semestre estou dando curso sobre as peças
Shakespeare na USP, e estamos lendo Romeu e Julieta [Romeo and Juliet],
O Sonho de uma Noite de Verão [A Midsummer Night’s Dream], A
Tempestade [The Tempest], e Hamlet. Sempre encorajo os alunos
a utilizar algumas das frases mais famosas de Shakespeare nas suas vidas
diárias.
Por exemplo, no fim de semana, escutando música
romântica ao vivo, que ajuda a aproximar o casal, não pode ter nada mais
apropriado do que as palavras do Duque Orsino, no começo de Noite de Reis
[Twelfth Night]: “If music be the food of love, play on!” [Se a música
for o alimento do amor, continue tocando!”]
E, se houver uma reconciliação depois de uma briga,
quais palavras mais adequadas do que as de Lisánder em O Sonho de uma Noite
de Verão: “The course of true love never did run smooth” [“O caminho do
verdadeiro amor nunca correu suavemente”].
E naquele momento da despedida do/da apaixonado/a,
empresta as palavras da Julieta: “Parting is such sweet sorrow...” [“Despedir é
tristeza tão doce”], ao que pode-se responder também com as palavras de
Julieta: “A thousand times goodnight!” [“Mil vezes boa noite!”]
Mas, se o amor não vem, e seu/sua amado/a prefere os
encantos de outro/a, você pode tomar conforto no fato de que não é a culpa dos
seus encantos físicos, usando as palavras de Helena, que, pelo no menos no
começo do Sonho, não é amada por ninguém: "Love looks not with the
eyes but with the mind” [“O amor não vê com os olhos mas com a mente”].
E também, talvez o potencial namorado/a foi conseguido
por meio de truque, como Hero conta em Muito Barulho por Nada [Much
Ado about Nothing]: “Some Cupid kills with arrows, some with traps”
[“Alguns o Cúpido mata com as flechas, mas outros com armadilhas”].
E se uma amiga começar a chorar as mágoas, você pode
usar as palavras de Hamlet a Ofélia: “Frailty, thy name is woman!”
[“Fragilidade, teu nome é mulher!”]
E se você está avisando seu/sua amigo/a sobre a
possibilidade de que ele/ela esteja sendo traído/a, porque não aproveita das
palavras de Iago para Otelo sobre o “Monstro de olhos verdes”: “O, beware, my
lord, of jealousy;/It is the green-ey'd monster, which doth mock/The meat it
feeds on.” [“Ô, tens cuidado, meu senhor, dos ciúmes;/É o monstro de olhos
verdes, que zomba/Da carne que o alimenta.”] Mas duvido que isso ajude a
situação!
E depois, quando aquele/a amigo/a te trai e se junta
com os inimigos, por favor, aproveite as palavras de Júlio César na peça
homônima quando seu grande amigo Brutus se juntou aos conspiradores e o
esfaqueou: “Et tu, Brute!” Não se esqueça do caso vocativo em latim: “Brute”.
E para soltar sua frustração por que não copia as
palavras de Emília, também em Othello: “These men, these men!” [“Esses
homens, esses homens!”]
O número de expressões que usamos diariamente na
língua inglesa que vêm de Shakespeare é enorme. Em alguns casos Shakespeare as
inventou, em outros casos ele aproveitou ou adaptou expressões que já
existiram: “Sweet are the uses of adversity” [Doces são os usos da adversidade”],
diz o Duque Senior em Como Você Quer [As You Like It]. “A good
riddance” [“Que bom que se vá!”] diz Pátroclo em Troilo e Créssida [Troilus
and Cressida], hoje expressão tão comum quando ficamos contentes que alguém
se vá ou alguma coisa desagradável termine. E alguém cheio de vida pode, como
Helena em Tudo Bem que Termina Bem [All’s Well that Ends Well],
pode “breathe life into a stone” [“dar vida a uma pedra”]. “Too much of a good
thing” [“Demaisiado de uma coisa boa”] diz Rosalind também em Como Você Quer.
“He hath eaten me out of house and home” [“Ela acabou com toda a comida no lar
e na casa”] diz Mistress Quickly de Sir John Falstaff em Henrique IV, Parte
II. “I must be cruel only to be kind” [“Tenho de ser cruel para ser
bondadoso”], diz Hamlet, quando decide matar Cláudio para ser “bondoso” a sua
mãe Gertrudis, que, depois da morte do seu pai, assassinado por Cláudio,
casa-se com Cláudio. Hoje geralmente dizemos “You have to be cruel to be kind”
[“V. tem de ser cruel para ser bondoso”]. E outra expressão comum vem do
covarde Falstaff em Henrique IV, Parte I: “The better part of valor is
discretion” [A melhor parte da coragem é a discrição”].
Muitas das expressões proverbiais vêm de Hamlet.
“'twas caviare to the general” [Era caviar para o geral”]: o povão não vai
gostar de nada muito sofisticado. “Brevity is the soul of wit” [“A brevidade é
a alma da espirituosidade”] diz Polônio em Hamlet, se contradizendo,
porque ele é um dos personagens mais tagarelas em toda a obra de
Shakespeare. Também a Rainha Gertrudes,
cansada dos falatórios de Polônio, lhe pede: “More matter with less art” [“Mais
assunto com menos arte”].
Polônio também nota que embora Hamlet pareça louco,
ele está conseguindo dizer alguma coisa com razão: “Though this be madness, yet
there is method in't” [“Embora seja a loucura, há método nele”]. “There’s
method in madness” [“Há método na loucura”] é o que geralmente dizemos.
“The primrose path” [“O caminho da prímula”],
mencionado por Ofélia, é o caminho bonito, de luxúria, que não deve ser
confundido com “to lead someone up the garden path”, [“enganar alguém”]. “Time
is out of joint” [“O tempo está deslocado”], diz Hamlet, para descrever os
acontecimentos estranhos, dando a impressão de que o tempo esteja deslocado,
como se fosse um membro do corpo.
“In the mind’s eye” [“No olho da mente”] é uma
expressão muito usada, quando se tem uma visão muito clara de alguma coisa na
mente.
Todas as expressões acima são de uso diário na língua
inglesa, e pessoalmente uso muitas, mas ainda não tive nenhuma ocasião para
usar as famosas palavras de Ricardo III: “A horse, a horse, my kingdom for a
horse!” [“Um cavalo, um cavalo! Meu reinado por um cavalo!”]
John Milton
é professor de Literatura Inglesa e Estudos da Tradução na USP. Ele
acaba de lançar Viagem à Turquia, Balcãs e Egito, pela Editora
Hedra.
Nenhum comentário:
Postar um comentário